Velho Chico, tão grande como o mar  escrito em domingo 27 abril 2008 17:22

descoberto em 4 de outubro de 1501, o rio são francisco recebeu o nome do santo do dia. mas os índios o conhecem pela sua aparência: opará, rio-mar, tão grande como o mar, tão grande como o mar a viagem dura uma semana. navegamos 400 km ao lo, velho chico

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Sergio Adeodato   Horizonte Geográfico

Descoberto em 4 de outubro de 1501, o rio São Francisco recebeu o nome do santo do dia. Mas os índios o conhecem pela sua aparência: Opará, rio-mar, tão grande como o mar A viagem dura uma semana. Navegamos 400 km ao longo do Baixo São Francisco, uma aventura cheia de surpresas, incomuns para um local tão explorado desde o tempo do Descobrimento. Água verde cristalina, ilhas paradisíacas. A cada quilômetro, a sensação de cruzar a paisagem árida e seca do sertão nordestino rumo ao Atlântico evoca um oceano de contrastes.

Pobreza e riqueza, destruição e conservação. De um lado, as mazelas sociais da terra de Lampião e Maria Bonita. De outro, a imponência do patrimônio histórico e a exuberância de tesouros naturais. No ponto final, quando chegamos à foz do São Francisco, na divisa de Sergipe com Alagoas, descobrimos um oásis. Como pode existir tamanha beleza natural no destino final de um rio tão sofrido ao longos de seus 2.700 km de extensão? A foz abriga a Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu, uma reserva de 188 km2, criada há vinte anos por lei federal para proteger a desova de tartarugas marinhas e a vegetação rasteira das dunas. Além de moluscos, anfíbios e répteis, como o jacaré-de-papo-amarelo, 111 espécies de aves pousam nas lagoas, praias e restingas. Entre as mais ameaçadas está o falcão-peregrino, pássaro migratório preservado por acordo internacional. Perigo igual correm as lontras, presentes nos alagadiços. A zona protegida na foz do São Francisco tem 11 quilômetros de praia oceânica deserta, entre o rio e o povoado costeiro do Pontal de Peba, em Alagoas. A tranqüilidade é essencial para as três espécies de tartarugas marinhas que procuram periodicamente a região para desova. Mas o silêncio às vezes é interrompido por buggies que levam os visitantes para conhecer a região. O passeio é permitido, embora restrito e controlado por fiscais para evitar a degradação ecológica. A melhor forma de chegar à foz é de barco - sejam as rústicas embarcações típicas do São Francisco, sejam os confortáveis catamarãs utilizados por agências de turismo. Partindo da cidade de Piaçabuçu, às margens do São Francisco, em Alagoas, a 131 km de Maceió, a viagem demora 50 minutos. Os barcos navegam por canais, serpenteando ilhas, algumas de mata exuberante. Conta-se na primeira ilha que uma moça tinha o hábito de namorar um pescador vindo da cidade, às escondidas do pai.

Para avisar o namorado que o caminho estava livre e o pai raivoso não estava em casa, ela prendia uma fitinha colorida na palha do coqueiro à beira do rio. O costume acabou dando o nome ao lugar - Ilha da Fitinha de Moça. Vinte minutos de passeio e já se pode avistar o imponente lençol de dunas. É onde o barco atraca. Daí se faz uma caminhada de 40 minutos entre manguezais, coqueirais e cajueiros apinhados de frutos amarelos e vermelhos. O percurso, incluindo a árdua subida em montanhas de areia, leva ao povoado Pixaim. Trata-se de um ponto verde de água farta, isolado entre 21 km de deserto. É aqui nesse esconderijo que vivem 60 pessoas - possivelmente descendentes de um quilombo. A origem escrava ainda não foi comprovada porque faltam registros. No entanto, no período colonial, caravelas aportavam na foz para trocar carne de gado por peixe e coco com os nativos - e os escravos acabavam fugindo dos barcos. O pescador Aladim Calixto dos Santos, de 70 anos, tem três grandes orgulhos: ser negro, como todos na vila; ter gerado 12 filhos (além de quatro já mortos), 36 netos e quatro bisnetos; e ter sido um mestre na pesca de tubarões. Hoje, ele trabalha na colheita de coco e sente-se feliz por viver em local preservado. "Aqui tenho tudo que preciso", afirma. O barco continua o percurso rio abaixo, até a foz, descoberta em 1501 pelo navegador Américo Vespúcio. Ali observamos as chamadas "borboletas do São Francisco", os botes dos pescadores artesanais que colorem a paisagem com as velas quadradas de cores fortes - azul, amarelo, vermelho. Na época da estiagem, a água é morna e cristalina. Ninguém resiste a um - ou vários - mergulhos. Caminhamos pela enseada até o ponto onde o rio finalmente desemboca no Atlântico. Ali, ocorre um "difícil dilema": banho no rio ou no mar? A maioria sucumbe às duas opções. De um lado da foz, em Alagoas, o cenário de dunas. Do outro, em Sergipe, as sobras do povoado Cabeço, engolido pelo mar - resultado das alterações provocadas no rio ao longo dos últimos trinta anos. Igreja, escola, prefeitura, tudo está submerso. O farol, erguido em 1876, ficava a 1,5 km do oceano e, agora, está dentro da água.

Exposta ainda, a torre envergada está a ponto de tombar e afundar definitivamente. No século 16, a foz do São Francisco tinha 12 km de embocadura - hoje tem 1,5 km. Apesar dessa redução provocada pelo assoreamento, a beleza do estuário está bem preservada. O desafio agora é reverter o impacto causado pelas barragens das usinas hidrelétricas, como Sobradinho e Xingó, construídas rio acima. As represas reduziram drasticamente a vazão das águas. Prejudicaram a navegabilidade e barraram o transporte de nutrientes. As lagoas nas margens, berçário natural de várias espécies de peixes e terreno fértil para cultivo de arroz, secaram. As cidades ribeirinhas se mobilizam para dar nova vida ao São Francisco e preservar refúgios ainda intocáveis.

Em Penedo, a 157 km de Maceió, porta de entrada da foz, o centro das atenções é a Várzea da Marituba, um extenso pântano que envolve três municípios, criadouro natural de peixes e hábitat de aves raras. Chamada de Grande Pantanal do Nordeste, a Marituba é um importante nicho ecológico, uma área de proteção ambiental criada por lei. Está localizada em meio a enormes canaviais que tomaram o lugar dos tradicionais cultivos de arroz e ameaçam o ecossistema. Jacarés, capivaras e furões se abrigam nos alagados. Os pescadores usam botes feitos em troncos de árvore inteiriços, como faziam os antigos índios.

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