Sergio Adeodato Horizonte Geográfico
Descoberto em 4 de outubro de 1501, o rio São Francisco recebeu
o nome do santo do dia. Mas os índios o conhecem pela sua
aparência: Opará, rio-mar, tão grande como o mar A viagem dura uma
semana. Navegamos 400 km ao longo do Baixo São Francisco, uma
aventura cheia de surpresas, incomuns para um local tão explorado
desde o tempo do Descobrimento. Água verde cristalina, ilhas
paradisíacas. A cada quilômetro, a sensação de cruzar a paisagem
árida e seca do sertão nordestino rumo ao Atlântico evoca um oceano
de contrastes.
Pobreza e riqueza, destruição e conservação. De um lado, as mazelas
sociais da terra de Lampião e Maria Bonita. De outro, a imponência
do patrimônio histórico e a exuberância de tesouros naturais. No
ponto final, quando chegamos à foz do São Francisco, na divisa de
Sergipe com Alagoas, descobrimos um oásis. Como pode existir
tamanha beleza natural no destino final de um rio tão sofrido ao
longos de seus 2.700 km de extensão? A foz abriga a Área de
Proteção Ambiental de Piaçabuçu, uma reserva de 188 km2, criada há
vinte anos por lei federal para proteger a desova de tartarugas
marinhas e a vegetação rasteira das dunas. Além de moluscos,
anfíbios e répteis, como o jacaré-de-papo-amarelo, 111 espécies de
aves pousam nas lagoas, praias e restingas. Entre as mais ameaçadas
está o falcão-peregrino, pássaro migratório preservado por acordo
internacional. Perigo igual correm as lontras, presentes nos
alagadiços. A zona protegida na foz do São Francisco tem 11
quilômetros de praia oceânica deserta, entre o rio e o povoado
costeiro do Pontal de Peba, em Alagoas. A tranqüilidade é essencial
para as três espécies de tartarugas marinhas que procuram
periodicamente a região para desova. Mas o silêncio às vezes é
interrompido por buggies que levam os visitantes para conhecer a
região. O passeio é permitido, embora restrito e controlado por
fiscais para evitar a degradação ecológica. A melhor forma de
chegar à foz é de barco - sejam as rústicas embarcações típicas do
São Francisco, sejam os confortáveis catamarãs utilizados por
agências de turismo. Partindo da cidade de Piaçabuçu, às margens do
São Francisco, em Alagoas, a 131 km de Maceió, a viagem demora 50
minutos. Os barcos navegam por canais, serpenteando ilhas, algumas
de mata exuberante. Conta-se na primeira ilha que uma moça tinha o
hábito de namorar um pescador vindo da cidade, às escondidas do
pai.
Para avisar o namorado que o caminho estava livre e o pai raivoso
não estava em casa, ela prendia uma fitinha colorida na palha do
coqueiro à beira do rio. O costume acabou dando o nome ao lugar -
Ilha da Fitinha de Moça. Vinte minutos de passeio e já se pode
avistar o imponente lençol de dunas. É onde o barco atraca. Daí se
faz uma caminhada de 40 minutos entre manguezais, coqueirais e
cajueiros apinhados de frutos amarelos e vermelhos. O percurso,
incluindo a árdua subida em montanhas de areia, leva ao povoado
Pixaim. Trata-se de um ponto verde de água farta, isolado entre 21
km de deserto. É aqui nesse esconderijo que vivem 60 pessoas -
possivelmente descendentes de um quilombo. A origem escrava ainda
não foi comprovada porque faltam registros. No entanto, no período
colonial, caravelas aportavam na foz para trocar carne de gado por
peixe e coco com os nativos - e os escravos acabavam fugindo dos
barcos. O pescador Aladim Calixto dos Santos, de 70 anos, tem três
grandes orgulhos: ser negro, como todos na vila; ter gerado 12
filhos (além de quatro já mortos), 36 netos e quatro bisnetos; e
ter sido um mestre na pesca de tubarões. Hoje, ele trabalha na
colheita de coco e sente-se feliz por viver em local preservado.
"Aqui tenho tudo que preciso", afirma. O barco continua o percurso
rio abaixo, até a foz, descoberta em 1501 pelo navegador Américo
Vespúcio. Ali observamos as chamadas "borboletas do São Francisco",
os botes dos pescadores artesanais que colorem a paisagem com as
velas quadradas de cores fortes - azul, amarelo, vermelho. Na época
da estiagem, a água é morna e cristalina. Ninguém resiste a um - ou
vários - mergulhos. Caminhamos pela enseada até o ponto onde o rio
finalmente desemboca no Atlântico. Ali, ocorre um "difícil dilema":
banho no rio ou no mar? A maioria sucumbe às duas opções. De um
lado da foz, em Alagoas, o cenário de dunas. Do outro, em Sergipe,
as sobras do povoado Cabeço, engolido pelo mar - resultado das
alterações provocadas no rio ao longo dos últimos trinta anos.
Igreja, escola, prefeitura, tudo está submerso. O farol, erguido em
1876, ficava a 1,5 km do oceano e, agora, está dentro da
água.
Exposta ainda, a torre envergada está a ponto de tombar e afundar
definitivamente. No século 16, a foz do São Francisco tinha 12 km
de embocadura - hoje tem 1,5 km. Apesar dessa redução provocada
pelo assoreamento, a beleza do estuário está bem preservada. O
desafio agora é reverter o impacto causado pelas barragens das
usinas hidrelétricas, como Sobradinho e Xingó, construídas rio
acima. As represas reduziram drasticamente a vazão das águas.
Prejudicaram a navegabilidade e barraram o transporte de
nutrientes. As lagoas nas margens, berçário natural de várias
espécies de peixes e terreno fértil para cultivo de arroz, secaram.
As cidades ribeirinhas se mobilizam para dar nova vida ao São
Francisco e preservar refúgios ainda intocáveis.
Em Penedo, a 157 km de Maceió, porta de entrada da foz, o centro
das atenções é a Várzea da Marituba, um extenso pântano que envolve
três municípios, criadouro natural de peixes e hábitat de aves
raras. Chamada de Grande Pantanal do Nordeste, a Marituba é um
importante nicho ecológico, uma área de proteção ambiental criada
por lei. Está localizada em meio a enormes canaviais que tomaram o
lugar dos tradicionais cultivos de arroz e ameaçam o ecossistema.
Jacarés, capivaras e furões se abrigam nos alagados. Os pescadores
usam botes feitos em troncos de árvore inteiriços, como faziam os
antigos índios.









